A fashiontech Insider, que superou R$ 500 milhões em faturamento em 2025, acaba de mostrar que não está disposta a ser apenas mais uma marca de roupa com discurso de inovação. A empresa contratou Marcello Hasegawa como novo diretor de Tecnologia (CTO). O executivo que liderou a área de inteligência artificial do Nubank e passou 14 anos na Microsoft, em Seattle, chega com a missão explícita de transformar a tecnologia em algo muito maior que suporte: o sistema nervoso central do negócio.
O movimento é ao mesmo tempo ambicioso e arriscado. Integrar inteligência artificial proprietária, gestão de estoques, margens, experiência do cliente e canais de venda em uma única plataforma de dados é um objetivo que muitas companhias de tecnologia de grande porte ainda não conseguiram executar com consistência. A Insider, porém, decidiu que é o momento de tentar o salto. E escolheu alguém com o perfil certo para isso: Hasegawa acumula não apenas a experiência de escala da Microsoft e a maturidade de IA do Nubank, como também comandou dados e inteligência artificial na fintech BHub.
Yuri Gricheno, CEO e cofundador da Insider, não esconde que a busca foi por alguém com profundidade técnica para construir capacidades proprietárias. "O próximo salto é transformar essa base em uma companhia ainda mais inteligente", afirmou. A frase revela um diagnóstico interno claro: a tecnologia deixou de ser uma alavanca de eficiência para se tornar uma das principais dimensões estratégicas. Quem ainda a trata como custo operacional está ficando para trás.
Hasegawa, por sua vez, descreve a decisão de entrar na fashiontech como uma percepção de timing. "IA gera valor real quando melhora a qualidade das decisões, aumenta produtividade, protege margem e cria uma experiência melhor para o cliente", disse. A frase poderia ser de qualquer manual de transformação digital, mas o contexto importa: a Insider já opera vendas via WhatsApp usando inteligência artificial desenvolvida internamente. O que o novo CTO precisa fazer é conectar essas iniciativas em um ecossistema coeso, algo que exige mais do que algoritmos isolados.
A empresa registra 1 milhão de clientes ativos, alcance global em mais de 50 países e 4,3 milhões de visitas mensais ao e-commerce. Os números impressionam, mas também revelam um desafio típico de empresas brasileiras que crescem rápido: o risco de escalar a desordem junto com o faturamento. A Insider investiu mais de R$ 1,5 milhão em inovação nos últimos três anos, com crescimento anual de 1,5x, segundo dados divulgados pela companhia.
Para os executivos latino-americanos que acompanham o movimento, o caso da Insider oferece uma leitura prática e incômoda. O cenário de adoção de IA em empresas brasileiras ainda é fragmentado: muitas adotam ferramentas prontas, mas poucas constroem capacidades proprietárias integradas aos sistemas de negócio. A contratação de um CTO com o perfil de Hasegawa é um sinal de que a empresa está disposta a pagar o preço da maturidade técnica em um ecossistema onde o custo de infraestrutura ainda pesa — especialmente quando se depende de cloud computing estrangeira e se enfrenta uma volatilidade cambial que pode corroer margens.
Hasegawa, que começou a carreira em projetos de pesquisa no Departamento de Matemática Aplicada e Estatística da USP e tem mestrado no ITA, conhece bem essa equação. "A próxima fronteira é transformar o aprendizado em capacidades operacionais consistentes conectadas aos sistemas do negócio", disse. A frase é uma advertência: sem integração de verdade, a IA vira um custo sem retorno.
A Insider nasceu em 2017 como uma fashiontech operando no modelo direto ao consumidor e cross-border. Hoje, com 1,2 milhão de pessoas alcançadas globalmente e 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, a empresa enfrenta o dilema de muitas scale-ups brasileiras: como manter a agilidade de uma startup enquanto se constroem as defesas de uma corporação. A aposta em um CTO vindo do núcleo duro da IA do Nubank e da Microsoft é a resposta da empresa a essa pergunta.
Enquanto a Insider tenta provar que uma marca de roupa pode ser plataforma de dados, o resto do mercado observa. Para o executivo regional que ainda hesita em transformar tecnologia em estratégia central, a mensagem é clara: quem não integrar IA aos sistemas de negócio corre o risco de ficar olhando o concorrente passar — vendendo mais, protegendo margens e tomando decisões melhores.
O salto que a Insider está tentando dar não é trivial. Mas a história recente mostra que, no varejo brasileiro, quem espera demais para amadurecer na tecnologia acaba sendo engolido por quem ousou construir antes.